8++ perguntas para @loiane

Loiane Groner ( @loiane ) é uma programadora Java, casada , capixaba, tem 23 anos cronologicamente comprovados em cartório e mora atualmente em Campinas, interior de São Paulo.

Bacharel em Ciência da Computação, trabalha como Java Developer/IT Specialist em um projeto internacional na IBM – Hortolândia-SP.

1. Cientista da computação e trabalhando com Java. Como foi seu primeiro contato com essa área e qual foi o motivo – se é que houve motivos especiais – que a motivou a seguir em frente ?

No começo sempre quis seguir a carreira de direito, mas não gostava de decorar história pra passar no vestibular. Resolvi mudar para a área de exatas, pois sempre gostei muito de física e matemática, e entre as carreiras possíveis escolhi ciência da computação pois sempre gostei de explorar o computador desde que ganhei o meu primeiro, aos 10 anos de idade (e o coitado vivia no conserto por causa disso! rs).

Entrei na faculdade sem nem sequer saber que raios era a tal da programação. Tive um pouco de dificuldade no início, para aprender lógica de programação, mas decidi que iria aprender aquilo de qualquer jeito e comecei a estudar bastante. Chegava a estudar lógica por umas 5 horas/dia no primeiro período da faculdade. Até que no final do período já tinha gosto por programar em portugol e não sentia mais dificuldade, aprendi a “manha”.

Minha primeira linguagem de programação foi Pascal, mas tinha muitas limitações. Depois ouvi sobre o tal de Java (na época java estava super na moda). Uma professora sugeriu começar um grupo de estudos fora do horário da faculdade para aprendermos a linguagem. E aí fiquei apaixonada e até hoje mantenho esse “casamento”.

2. Ao que consta, o primeiro programador foi na realidade uma programadorA – http://en.wikipedia.org/wiki/Programmer -, porém, mesmo assim o espaço das programadoras é bem pequeno. Acha que há algum tipo de impedimento ou preconceito que esteja dificultando mais programadoras ?

Essa é uma questão que há anos intriga os pesquisadores da área. A escassez da participação de mulheres não ocorre apenas na computação, mas em qualquer carreira científica. A taxa de mulheres na graduação de exatas sempre foi baixa, mas depois de 2000 esse número descresceu ainda mais.

A ACM e a SBC estão bem empenhadas para divulgar e tentar trazer mais mulheres para a área.

Na minha opinião, o que ajudaria muito seria introduzir o estudo da programação básica ainda no ensino médio, pois é nessa época que começamos a pensar em qual profissão iremos seguir carreira. Assim, mais garotas (e também garotos) ficariam atraídos pela área, e muitos decobririam aptidão e vocação que às vezes nem sabem que têm.

3. Eu já pude ver algumas pessoas um pouco decepcionadas com as provas de certificação da Sun para a linguagem Java – o que não inclui a SCEA, claro – Você inclusive foi uma delas :) Essa forma facilitada está fazendo a certificação perder seu valor “no mercado” tornando-se um belo quadro ou elas ainda tem seu valor para o profissional ?

A certificação nunca tem o objetivo de desvalorizar o profissional, muito pelo contrário. O que acontece com a certificação da SUN é que atualmente, ficou muito fácil de passar. Bastam 2 meses de estudos e decoreba que você passa, ou seja, “qualquer um” consegue uma certificação SCJP, até mesmo quem nunca programou em Java.

Vamos ver se com a reformulação da Oracle isso vai mudar agora. O que eu acho que a maioria dos profissionais java esperam, é que seja cobrado na certificação problemas e cenários presentes no dia-a-dia de um profissional java, valorizando a experiência, e não apenas decorar para daqui a um mês esquecer tudo.

O que quero deixar bem claro é: se tiver vontade de tirar a certificação por você mesmo, ou seja, para aprender mais sobre Java, vai fundo, porque você vai ser valorizado por isso. Mas se quiser tirar a certificação só pra colocar no currículo (decorar pra passar), não é o fato de ter a certificação que vai ajudar a conseguir um emprego, até porque fora do Brasil, certificação da SUN não é muito valorizada, aliás, os caras lá fora nem vão ler o seu currículo, só irão te entrevistar pra ver se você realmente sabe o conteúdo.

Essa é minha opinião pessoal. Esse assunto é um pouco complicado de abordar, já gerou várias brigas em listas de discussão, é igual política, cada um defende um lado! rs

4. Há várias aplicações, inclusive Bancos, que utilizam o Java no backend e fazem integração para rodar PHP como frontend dessa aplicação Java. Como você enxerga este fato ? Pelo que sei, esta parte é uma das mais “XML based” dos padrões JEE. Há implementações JEE que trabalham seguindo a linha “Convenção sobre Configuração (CoC)”, trazendo uma boa melhoria eliminando tanto XML. Mesmo assim, o modelo Controller (Servlets) e View (JSP, JSTL) do JEE é visto como um problema para a comunidade ou acredita que haja outros motivos para essa adoção hibrida ?

Acredito que essa mixagem de linguagens se dá por alguns fatores:

O contra do PHP nesses casos é a fraca implementação OO, o que leva a pouco reaproveitamento de código e dificulta a manutenção por isso. Porém, a curva de aprendizado do PHP é pouco íngreme. Por outro lado, temos o Java, com implementação OO bem forte, mas a curva de aprendizagem é longa e íngreme. Sem contar o fato que ás vezes, muitas empresas não migram totalmente seus sistemas para Java justamente por esse fato, o que resultaria em alto custo de treinamento dos funcionários.

Hoje há uma certa flexibilidade entre linguagens e diferentes sistemas, então é legal explorar esse lado e usar o que cada linguagem tem de melhor para oferecer.

5. Trabalha especificamente com Web. Qual o motivo da escolha pelo Java ?

Comecei com Java no meu estágio e depois nunca parei. Meu trabalho foi sempre voltado para web, que acredito ser a maior demanda hoje, independente de linguagem. Me colocaram para trabalhar com web e aqui estou – só trabalhei em um projeto desktop até hoje. Gosto bastante da área, bem eclética, há centenas de recursos que pode-se usar, às vezes fica até difícil escolher o que usar.

Java oferece vários recursos nativos da própria linguagem, além de vários frameworks no mercado, como Spring, JSF, Struts, Vraptor (um brazuca que é ótimo). Sem contar com a mixagem de frameworks que se pode fazer, tanto no lado servidor, quanto no lado do cliente (browser).

6. No seu blog é fácil perceber que há vários artigos sobre o lado frontend de uma aplicação. É sua preferência ? Por quê ?

No último ano troquei de empresa e tive oportunidade de aprender novos frameworks. Sempre trabalhei muito com código do lado servidor. Nessa nova experiência, tive oportunidade de trabalhar com código do lado cliente (browser) e aprendi mais javascript. Comecei a aprender ExtJS (framework javascript) e JQuery, que são maravilhosos e poupam muito o tempo do desenvolvedor.

Hoje divido meu tempo entre frontend e backend. É legal porque nos torna um profissional mais completo. Profissional java web, além de saber Java e frameworks, também tem que saber javascript, HTML e CSS, senão fica um profissional incompleto. Temos que desenvolver a aplicação pensando no usuário (que pensa que é mágica que acontece por trás da tela!), por isso também gosto do frontend.

No meu blog faço um log de algumas coisas que estou aprendendo, estudando. Às vezes é fácil encontrar na internet aquele exemplo bem básico, mas quando precisa fazer alguma integração com outra tecnologia é mais complicado de encontrar. Faço meus testes e publico no blog, assim, quando precisar novamente daquilo já tenho um passo a passo pronto, além de poder ajudar outras pessoas que podem ter as mesmas dificuldades.

7. A Oracle já colocou sua “cara” nos sites que pertenciam a Sun. Essa aquisição trouxe temores à comunidade Java ? O que esperam do futuro da linguagem ?

Há muita coisa sobre a Oracle que a gente ainda não sabe. Acho que só esperando pra ver. A Oracle já comprou várias empresas e muita coisa mudou para elas, mas acho que nenhuma compra foi tão importante e deu tanto o que falar quanto a compra da SUN.

Uma coisa já sabemos: a Oracle vai continuar com o suporte aos JUGs – grupos de usuários java. Enviaram uma carta aos JUG leaders. A nossa preocupação agora é se esse suporte vai ser tão bom quanto a SUN nos dava. Pelo menos foram bem receptivos com a gente.

Recentemente anunciaram algumas mudanças na certificação. Isso pode trazer tanto pró como pode ser contra. A Oracle tem a fama de precisar fazer curso para tirar certificação, o que seria ruim. Por outro lado, talvez mudem um pouco o processo da certificação e a melhore, trazendo de volta o status que uma certificação Java tinha antigamente.

8. Já estive presente em seminários “Javeiros” e foi comum ouvir horrores sobre o PHP. Mesmo sendo ele tachado como “ridículo” pelos Javeiros, a adoção dele por empresas de gente grande é elevada – Yahoo!, Flickr (agora Yahoo!), Last.fm, Digg, Facebook, … – além das recentes “amizades” com Microsoft e Adobe. O que você pensa sobre esse #flamewar que o pessoal do Java faz contra o PHP. #off : (olha lá, sou developer PHP, hein !? =P ) /off

Flamewar não faz bem para ninguém. Há muitos desenvolvedores que são apaixonados pela linguagem, como os profissionais Java. Mas ser radical é ridículo. As pessoas precisam aprender que a linguagem é apenas uma ferramenta de trabalho. Java pode ser melhor para certos tipos de sistemas, PHP para outros, C/C++, C#, Ruby, Cobol, e assim por diante.

Uma linguagem não é melhor do que a outra, temos que saber usar e saber o que aplicar para cada tipo de situação.

Não adianta eu falar que PHP/Java/C# é a melhor linguagem do mundo sendo que preciso desenvolver um sistema para mainframe. Nesse caso, não há linguagem melhor do que cobol. E aí?

Hoje as empresas não buscam mais aquele cara que só sabe uma linguagem. Para se destacar hoje no mercado, é preciso ser um profissional “multi-línguas”. Aquela pessoa que for muito xiita, não vai se sair muito bem…

8++. Entre os developers Java, parece que há uma certa afinidade com o Ruby (e o Rails) que carrega a bandeira ágil, o qual possui um manifesto criado por dezessete developers muitos deles developers Java. Qual é a explicação para essa afinidade em seu ponto de vista ?

Ruby é a linguagem do momento, da moda, que as pessoas dizem ser a linguagem do futuro. Ruby tem vários recursos incríveis, além de ser rápida para codificar. Como já citei na resposta anterior, hoje o profissional procurado é aquele que não tem problema de se adaptar para usar uma outra linguagem, ou várias ao mesmo tempo. O “in” é usar o que tem de melhor de cada linguagem para construir um sistema mais robusto, mais potente. E com certeza Java e Ruby é uma ótima combinação!



7 comentários para “8++ perguntas para @loiane”

  1. Eduardo says:

    “O contra do PHP nesses casos é a fraca implementação OO”

    parei aqui.

  2. Ismael Vacco says:

    Eduardo, cita todos os casos de polimorfismo que pode-se fazer com PHP e todos os casos de polimorfismo que existe em JAVA. Este é um pequeno exemplo de que java é mais robusto em questão de OO.
    @loiane, É isso ai!

  3. Loiane says:

    Valeu pela oportunidade Helio!
    ;)

  4. [...] o link do post: http://www.hlegius.pro.br/8-perguntas-para-loiane/ AKPC_IDS += "1685,"; var a2a_config = a2a_config || {}; a2a_localize = { Share: "Compartilhar", [...]

  5. Também parei a leitura neste momento Eduardo, porque o problema não é a implementação OO, é a dificuldade de se gerenciar equipes de baixo custo.

    A verborragia de Java deveria funcionar forçando a equipe a adotar padrões, mas verifica-se que isto não funciona, até porque é possível ser redundante e escrever um péssimo código, seja qual for o paradigma e linguagem.

    Tenho certeza que a implementação de OO no PHP não seja fraca, apenas o suficiente. Colocar a culpa de ser redundante nisto, é coisa de péssimo programador.

  6. Loiane says:

    @Lucas e @Eduardo

    Bem, comparado a Java, o suporte OO do PHP é mais fraco mesmo (mas isso não significa que não tenha suporte OO), pelo que já vi. Mas não sou programadora PHP, só brinquei com a linguagem até hoje. Sorry se disse alguma besteira!
    Como disse em outro post, é a minha opinião baseado no que eu sei, não é uma resposta correta ou errada.

  7. camilo lopes says:

    pow legal a entrevista Loiane. É como vc falou nao dar para dizer que a linguagem X eh melhor que a Y. Eu nao sei pq o pessoal de modo geral tem mania de comparar o PHP com Java. Cada uma com suas especialidades. Construir um simples sites, eu acho o php, mais fácil e barato. Uma hospedagem java ainda custa caro principalmente aqui no Brasil, ja o php custa 10,00 ou até menos e completinho. Eu particularmente nunca conseguir comparar PHP x Java(JEE), so por serem web?
    E sobre a compra da Oracle pelo Java, apesar que eu fiquei torcendo pela IBM. Porem, mesmo assim é impossivel e absurdo pensar que como muitos estao falando ai em foruns etc. A morte Java etc. A Oracle ela nao tem esse poder todo de matar uma tecnologia Java, sem falar que há bilhoes de $$ investido no Java por outras companhias de porte até maior que Oracle. O problema que vejo maior é que a discussao sobre o assunto sempre está sendo visto pro lado tecnico da coisa. Discutir sobre morte ou nao de uma tecnologia, tem que ir para área de negocios. Então uma pergunta que um executivo TI fez em uma discussao: “Você entende o processo real de amortização de investimento de uma empresa de médio/grande porte, em relação ao seu investimento?”.
    Quem entende bem, sabe o caminho do Java com aquisicao da Oracle.

    abracos, Parabens mais uma vez.

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